"Espanha é um país frustrado. (...) Espanha teve reis incapazes, aristocratas corruptos e bispos fanáticos. E a classe política é analfabeta e medíocre. Os jovens do meu país (...) ou aprendem inglês para sair de Espanha ou aprendem a fazer um 'cocktail' molotov".
Arturo Pérez Reverte, escritor e antigo jornalista, em entrevista ao jornal Público
domingo, 29 de maio de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
Quando o cheiro a poder emana de um ovo kinder
Nuno Morais Sarmento entrou na campanha do PSD para dar um abraço a Pedro Passos Coelho, levando esta sentença: "tenho a certeza de que Pedro Passos será o próximo primeiro-ministro". O antigo ministro de Durão Barroso deve estar agora num dilema: ou não gosta muito de Portugal ou tem uma fé inabalável na aprendizagem "fast-food" (como diria Manuel Maria Carrilho). O mesmo Morais Sarmento deu uma entrevista ao Jornal de Notícias, a 6 de novembro de 2010, em que não mostrava dúvidas sobre os atributos de Pedro Passos Coelho. Daí que tenha lançado estas pérolas:
"(PPC) teve o arrojo e coragem de aceitar um desafio para o qual, à partida, dificilmente reúne condições pessoais e políticas" (sobre ser PM)
"É difícil de acreditar que aos 46 anos Passos Coelho não tenha nenhuma obra para mostrar"
"A táctica (de PPC) é absolutamente gratuita"
"É desprestigiante para o PSD o caminho que está a fazer. É errado e estúpido"
E, para terminar, a cereja em cima do bolo de Passos Coelho:
"Ainda é um ovo Kinder. Não tem provas dadas".
Falta agora perceber as verdadeiras intenções de Nuno Morais Sarmento para este zigue-zague. Deve estar a aquecer alguma cadeira a pensar no dia 6.
"(PPC) teve o arrojo e coragem de aceitar um desafio para o qual, à partida, dificilmente reúne condições pessoais e políticas" (sobre ser PM)
"É difícil de acreditar que aos 46 anos Passos Coelho não tenha nenhuma obra para mostrar"
"A táctica (de PPC) é absolutamente gratuita"
"É desprestigiante para o PSD o caminho que está a fazer. É errado e estúpido"
E, para terminar, a cereja em cima do bolo de Passos Coelho:
"Ainda é um ovo Kinder. Não tem provas dadas".
Falta agora perceber as verdadeiras intenções de Nuno Morais Sarmento para este zigue-zague. Deve estar a aquecer alguma cadeira a pensar no dia 6.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Fome para o almoço
Além de assistirem a um comício de José Sócrates, em Évora, os imigrantes - paquistaneses, indianos, chineses e africanos -, arregimentados em autocarros, tiveram direito a um almoço, como aliás as televisões trataram de reportar com detalhes. Foi uma sorte, no fundo. No dia anterior, já tinham estado em Beja, mas tiveram azar: só havia carne para a refeição! Muitos deles passaram fome.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Andamos a discutir pintassilgos obscuros
Eduardo Catroga acusou, esta noite, em entrevista à SIC-Notícias, os jornalistas de ignorarem as verdadeiras questões que devem preocupar o país:
"(...) a discutir as grandes questões que podem mudar o país, andam a discutir, passe a expressão, pintelhos".
É difícil perceber o que exatamente o putativo ministro das Finanças quis dizer. Para quem não perceba esta linguagem política, "pintelho", de acordo com o Dicionário da Bertrand, de Cândido Figueiredo, é uma "espécie de pintassilgo (puffinus obscurus)".
"(...) a discutir as grandes questões que podem mudar o país, andam a discutir, passe a expressão, pintelhos".
É difícil perceber o que exatamente o putativo ministro das Finanças quis dizer. Para quem não perceba esta linguagem política, "pintelho", de acordo com o Dicionário da Bertrand, de Cândido Figueiredo, é uma "espécie de pintassilgo (puffinus obscurus)".
segunda-feira, 9 de maio de 2011
O CDS já garantiu um "ministério"
Pedro Passos Coelho anda, há dias, a clamar que não pretende fazer qualquer coligação ou acordo com o PS. Aliás, repetiu-o vezes sem conta: "ou eles ou nós". É sabido que é impossível qualquer entendimento com o PCP ou com o Bloco de Esquerda. Resta portanto o CDS que o próprio líder social-democrata reconhece ser o parceiro ideal. Esta noite, em Guimarães, Passos Coelho definiu, numa única frase, o papel de cada um:
"Quero uma maioria clara que não pode ficar dependente de nenhum pau de cabeleira".
Num futuro governo reduzido, haverá lugar para um ministro que segure na vela?
"Quero uma maioria clara que não pode ficar dependente de nenhum pau de cabeleira".
Num futuro governo reduzido, haverá lugar para um ministro que segure na vela?
domingo, 8 de maio de 2011
A mão que embala (ou) as revoltas no Magrebe
A organização radical islâmica do Magrebe, ou melhor, a Al-Qaida no Magrebe Islâmico (AQMI) resolveu revelar que, afinal, esteve por detrás das revoltas no Egito e na Tunísia. Nada de novo para quem minimamente anda atento às actividades dos radicais islâmicos. Por aqui, por este blogue, já se tinha adivinhado qualquer coisa do género aqui e aqui. As garras, há muito, que estão afiadas. Mas há líderes políticos, de Portugal aos Estados Unidos, passando por França e Itália, que teimam em não entender isso. Ou então entendem bem demais e encolhem os ombros.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Um governo pior do que Sporting ou a confissão de um ministro
Na noite das eleições no Sporting - as tais que resultaram em ameaças de impugnação e numa mini-batalha campal - José Sócrates estava no estrangeiro. Ainda assim, preocupado com o que se passava em Portugal, mandou um sms para um dos seus ministros, sportinguista convicto, a perguntar se o seu clube "precisava da ajuda do FMI".
Resposta do ministro:
- Não. Nós somos capazes de resolver internamente os nossos problemas.
Lendo bem, fica-se a saber que há um ministro que acha que o Sporting é capaz de resolver "internamente" os seus problemas. Isto foi em Março. O FMI chegou para resolver os problemas de um governo que não é (foi) capaz de ser como o Sporting. E o ministro tem mais confiança no clube que no governo.
Att: a estória do sms foi contada pelo próprio José Sócrates no programa "5 para a Meia-Noite".
Resposta do ministro:
- Não. Nós somos capazes de resolver internamente os nossos problemas.
Lendo bem, fica-se a saber que há um ministro que acha que o Sporting é capaz de resolver "internamente" os seus problemas. Isto foi em Março. O FMI chegou para resolver os problemas de um governo que não é (foi) capaz de ser como o Sporting. E o ministro tem mais confiança no clube que no governo.
Att: a estória do sms foi contada pelo próprio José Sócrates no programa "5 para a Meia-Noite".
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Fontes e fontanários
As medidas que, afinal, não fazem parte do pacote de ajustamento negociado entre Portugal e a troika, correspondem mais ou menos às notícias, muitas vezes em manchete, que vários jornais, televisões e rádios foram anunciando ao longo das últimas semanas sobre os planos da troika para Portugal.
Toda a gente teve acesso a informação privilegiada de “fontes” ligadas às negociações ou, muitas vezes, rematada com o ainda mais tranquilizador, “o XXX sabe”, ou “o XXX apurou”, ou muitas outras vezes, sem qualquer referência ou mera alusão acerca da respectiva origem. O XXX sabe e publica, logo, o leitor pode acreditar à vontade.
Pena que a esmagadora maioria dessas informações se tenha revelado falsa. Como a que ainda ontem, dia em que se dava como certo o fim das negociações, antecipava cortes nas pensões a partir de 600 euros, ou a que garantia que o valor da ajuda seria de 105 mil milhões de euros, muito longe dos 75-80 mil milhões avançados por diferentes responsáveis europeus. Isto no mesmo dia em que outro jornal atirou para o ar o número de 60 mil milhões de euros. Tudo em televisões e jornais de referência, claro.
E sobra sempre a explicação de que, apesar de muitas dessas informações não terem batido certo com a realidade, na altura em que o XXX as publicou, elas estavam mesmo em cima da mesa das negociações, mas as coisas entretanto evoluíram… Sobretudo é preciso evitar que a realidade possa estragar uma boa estória.
Não se percebe se é a necessidade de mostrar serviço às chefias e administrações, vender papel e insuflar audiências, ou a vontade de agradar às ditas fontes, que se sobrepuseram à necessidade de rigor, de cruzar informações ou de simples bom senso. Ainda por cima tendo em conta o clima eleitoral em que tudo isto acontece(u) e o interesse redobrado dos vários protagonistas/fontes veicularem as suas teses ou difundirem os seus boatos (basta ver como PS e PSD tentam capitalizar com a dramatização anterior). É duvidoso que os jornalistas que escreveram essas informações e os jornais que as publicaram as tenham inventado (todas). Mas não é justificável que muitas vezes as tenham reproduzido de forma acrítica.
Certo é que o que foi feito não foi bom nem para o jornalismo, nem para o país. E, infelizmente, praticamente ninguém sai bem desta história.
Toda a gente teve acesso a informação privilegiada de “fontes” ligadas às negociações ou, muitas vezes, rematada com o ainda mais tranquilizador, “o XXX sabe”, ou “o XXX apurou”, ou muitas outras vezes, sem qualquer referência ou mera alusão acerca da respectiva origem. O XXX sabe e publica, logo, o leitor pode acreditar à vontade.
Pena que a esmagadora maioria dessas informações se tenha revelado falsa. Como a que ainda ontem, dia em que se dava como certo o fim das negociações, antecipava cortes nas pensões a partir de 600 euros, ou a que garantia que o valor da ajuda seria de 105 mil milhões de euros, muito longe dos 75-80 mil milhões avançados por diferentes responsáveis europeus. Isto no mesmo dia em que outro jornal atirou para o ar o número de 60 mil milhões de euros. Tudo em televisões e jornais de referência, claro.
E sobra sempre a explicação de que, apesar de muitas dessas informações não terem batido certo com a realidade, na altura em que o XXX as publicou, elas estavam mesmo em cima da mesa das negociações, mas as coisas entretanto evoluíram… Sobretudo é preciso evitar que a realidade possa estragar uma boa estória.
Não se percebe se é a necessidade de mostrar serviço às chefias e administrações, vender papel e insuflar audiências, ou a vontade de agradar às ditas fontes, que se sobrepuseram à necessidade de rigor, de cruzar informações ou de simples bom senso. Ainda por cima tendo em conta o clima eleitoral em que tudo isto acontece(u) e o interesse redobrado dos vários protagonistas/fontes veicularem as suas teses ou difundirem os seus boatos (basta ver como PS e PSD tentam capitalizar com a dramatização anterior). É duvidoso que os jornalistas que escreveram essas informações e os jornais que as publicaram as tenham inventado (todas). Mas não é justificável que muitas vezes as tenham reproduzido de forma acrítica.
Certo é que o que foi feito não foi bom nem para o jornalismo, nem para o país. E, infelizmente, praticamente ninguém sai bem desta história.
Os habilidosos
O não-anúncio das medidas de austeridade associadas ao pedido de ajuda financeira, tal como feito na terça-feira à noite por José Sócrates, é como ir ao médico sabendo de antemão que se sofre de uma doença muito grave e ouvir o clínico desfiar todos os outros males, ainda mais graves, que não fazem parte da ficha clínica do paciente. É como explicar a um tuberculoso que tem todos os motivos para estar satisfeito, uma vez que não sofre da doença de Creutzfeldt-Jakob.
Mas cuidado com as segundas opiniões. Eduardo Catroga, que se fartou de escrever nas últimas semanas para se queixar do governo, que andava a omitir informação e a deixar o PSD de fora das negociações, vem agora reivindicar a paternidade do que há de “bom” no acordo. Neste mundo da medicina, o negociador do PSD é o clínico que tem a parede forrada de diplomas reluzentes, mas falsos e de universidades obscuras.
Deve ser a primeira vez que um governo anuncia um pacote de austeridade sem o anunciar, com a cumplicidade do partido da oposição que garante a implementação desse mesmo acordo. Mas tendo em conta que as eleições são daqui a um mês, afinal, quem os pode censurar… Espera-se que a conferência de imprensa da troika seja mais esclarecedora.
Mas cuidado com as segundas opiniões. Eduardo Catroga, que se fartou de escrever nas últimas semanas para se queixar do governo, que andava a omitir informação e a deixar o PSD de fora das negociações, vem agora reivindicar a paternidade do que há de “bom” no acordo. Neste mundo da medicina, o negociador do PSD é o clínico que tem a parede forrada de diplomas reluzentes, mas falsos e de universidades obscuras.
Deve ser a primeira vez que um governo anuncia um pacote de austeridade sem o anunciar, com a cumplicidade do partido da oposição que garante a implementação desse mesmo acordo. Mas tendo em conta que as eleições são daqui a um mês, afinal, quem os pode censurar… Espera-se que a conferência de imprensa da troika seja mais esclarecedora.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Antes vivo do que morto
O mais difícil com a morte de Osama bin Laden é não conseguir perceber a euforia que vai pelo mundo ocidental. E não conseguir encontrar razões por que gente avisada como funciona a Al-Qaida aplauda com entusiasmo o seu desaparecimento.
Vivo, bin Laden, há muito, que não tinha qualquer papel relevante na estrutura e na ação da organização que ele ajudou a criar. Era apenas um homem acossado, a fintar alguns agentes dos Serviços Secretos paquistaneses que não simpatizam com a Al-Qaida, a refugiar-se em casas no único país que, de facto, o poderia acolher, a viver com medo da própria sombra e sem sequer poder usar comunicações. A Al-Qaida, mesmo em menor escala, continou a funcionar da forma como foi idealizada pelo seu "pai", o egípcio Sayyid Qutb, e colocada em prática por bin Laden: a exportar a "revolução", apoiando, com gente e com dinheiro, organizações terroristas islâmicas pelo mundo.
Morto, bin Laden transformou-se num herói, num mártir e, acima de tudo, numa razão acrescida para mais atentados. A vingança será um prato poderá ser servido banhado de sangue. Bin Laden, morto, vai conseguir acender mais a fé radical islâmica do que fez nestes últimos anos. A semente do radicalismo continua inamovível e até, nalguns casos, sempre a dar frutos: nas escolas e faculdadades islâmicas do Egito, nas 'madrassas' do Paquistão, nalgumas escolas e rádios da Tunísia, em muitas mesquistas da Bósnia, da Síria, do Iraque, da Nigéria, do Iémen...
Morto, bin Laden serve apenas para o mundo ocidental como um troféu, uma bandeira, um símbolo. E nada mais do que isso. O terrorismo islâmico não foi decapitado. Retiraram-lhe apenas o alfinete da lapela. E nem sequer conseguiram sugar-lhe o espírito.
Vivo, bin Laden, há muito, que não tinha qualquer papel relevante na estrutura e na ação da organização que ele ajudou a criar. Era apenas um homem acossado, a fintar alguns agentes dos Serviços Secretos paquistaneses que não simpatizam com a Al-Qaida, a refugiar-se em casas no único país que, de facto, o poderia acolher, a viver com medo da própria sombra e sem sequer poder usar comunicações. A Al-Qaida, mesmo em menor escala, continou a funcionar da forma como foi idealizada pelo seu "pai", o egípcio Sayyid Qutb, e colocada em prática por bin Laden: a exportar a "revolução", apoiando, com gente e com dinheiro, organizações terroristas islâmicas pelo mundo.
Morto, bin Laden transformou-se num herói, num mártir e, acima de tudo, numa razão acrescida para mais atentados. A vingança será um prato poderá ser servido banhado de sangue. Bin Laden, morto, vai conseguir acender mais a fé radical islâmica do que fez nestes últimos anos. A semente do radicalismo continua inamovível e até, nalguns casos, sempre a dar frutos: nas escolas e faculdadades islâmicas do Egito, nas 'madrassas' do Paquistão, nalgumas escolas e rádios da Tunísia, em muitas mesquistas da Bósnia, da Síria, do Iraque, da Nigéria, do Iémen...
Morto, bin Laden serve apenas para o mundo ocidental como um troféu, uma bandeira, um símbolo. E nada mais do que isso. O terrorismo islâmico não foi decapitado. Retiraram-lhe apenas o alfinete da lapela. E nem sequer conseguiram sugar-lhe o espírito.
sábado, 30 de abril de 2011
Que parte do 'é um bocado tarde para isso' é que não perceberam?
Depois de, à semelhança do PCP, ter recusado reunir com a troika, o Bloco de Esquerda solicitou uma reunião com o governo para expor as suas posições antes de Portugal assumir qualquer compromisso com as instituições internacionais com que está a negociar o pacote de ajustamento que terá que implementar, em troca do financiamento para os próximos anos.
Dias antes o negociador do PSD escreveu ao governo a manifestar a disponibilidade do seu partido para encontrar um entendimento com o executivo nas negociações.
Pouco antes José Sócrates apresentou o programa eleitoral do PS até 2015.
Todos estes actos parecem ignorar o simples facto de as ditas negociações estarem a decorrer há várias semanas, de estarem prestes a ser concluídas e de o anúncio do seu resultado ser esperado o mais tardar até à próxima quarta-feira.
E o que vai ser anunciado não será um conjunto de ideias para reflexão dos partidos portugueses. Mas sim um pacote definitivo com medidas concretas e metas temporais específicas para as alcançar e que, quando vir a luz do dia, já terá o acordo do governo e o apoio do PSD e do CDS. E não um acordo do género, ‘ok, depois logo vemos o que fazemos com isso’, mas um acordo escrito na pedra (com cartas de conforto, declarações unilaterais, sem fotos de grupo ou o que quer que seja) que o próximo governo terá que implementar, seja qual for a sua composição. Pois essa implementação será monitorizada periodicamente e qualquer desvio levará ao fecho imediato da torneira dos milhões da União Europeia e do FMI de que Portugal precisa.
Os traços gerais do que aí vem estão na edição de hoje do Expresso e vão desde a reestruturação da administração pública e a reforma da justiça, a um vasto programa de privatizações, passando pela flexibilização do mercado laboral e mexidas nos impostos. Entre outras coisas. Austeridade e reformas a sério. Em alguns casos será mais do mesmo que sucessivos governos têm vindo a fazer ao longo dos últimos 10 anos, mas com a ênfase no ‘mais’.
E é isto que vai ser anunciado brevemente e que não foi minimamente discutido pelos partidos portugueses nas últimas semanas. Nem isso, nem outras coisas, como por exemplo, que taxa de juro vai a Europa exigir a Portugal pelo dinheiro que emprestará, e que se sabe à partida que não será nenhuma prenda, e que estratégia negocial poderia seguir o país para obter um resultado menos penalizador.
Mas não. As energias e atenções foram gastas em trocas de acusações, insultos, birras e tretas, com a preciosa ajuda da generalidade da comunicação social, mais interessada nestes epifenómenos, nas partidas e chegadas vazias de conteúdo dos ‘homens do FMI’ ao ministério das finanças e do respectivo pequeno-almoço do que na necessidade de tentar levar o debate para as questões de fundo. Tudo a culminar na apresentação de um surreal programa de governo que pretende ignorar que o verdadeiro programa do próximo governo será o anunciado não por nenhum dos partidos portugueses, mas pelos representantes da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu. A bem da democracia, claro.
Algo que é óbvio e que tanto Sócrates, como Passos Coelho sabem e que o próprio Francisco Louçã não ignora, o que faz com que, conduzido desta forma, o debate político nacional se assemelhe a uma enorme farsa, com uma classe política mais preocupada com os seus interesses de curto prazo do que com um qualquer interesse nacional. Seja lá isso o que for.
Dias antes o negociador do PSD escreveu ao governo a manifestar a disponibilidade do seu partido para encontrar um entendimento com o executivo nas negociações.
Pouco antes José Sócrates apresentou o programa eleitoral do PS até 2015.
Todos estes actos parecem ignorar o simples facto de as ditas negociações estarem a decorrer há várias semanas, de estarem prestes a ser concluídas e de o anúncio do seu resultado ser esperado o mais tardar até à próxima quarta-feira.
E o que vai ser anunciado não será um conjunto de ideias para reflexão dos partidos portugueses. Mas sim um pacote definitivo com medidas concretas e metas temporais específicas para as alcançar e que, quando vir a luz do dia, já terá o acordo do governo e o apoio do PSD e do CDS. E não um acordo do género, ‘ok, depois logo vemos o que fazemos com isso’, mas um acordo escrito na pedra (com cartas de conforto, declarações unilaterais, sem fotos de grupo ou o que quer que seja) que o próximo governo terá que implementar, seja qual for a sua composição. Pois essa implementação será monitorizada periodicamente e qualquer desvio levará ao fecho imediato da torneira dos milhões da União Europeia e do FMI de que Portugal precisa.
Os traços gerais do que aí vem estão na edição de hoje do Expresso e vão desde a reestruturação da administração pública e a reforma da justiça, a um vasto programa de privatizações, passando pela flexibilização do mercado laboral e mexidas nos impostos. Entre outras coisas. Austeridade e reformas a sério. Em alguns casos será mais do mesmo que sucessivos governos têm vindo a fazer ao longo dos últimos 10 anos, mas com a ênfase no ‘mais’.
E é isto que vai ser anunciado brevemente e que não foi minimamente discutido pelos partidos portugueses nas últimas semanas. Nem isso, nem outras coisas, como por exemplo, que taxa de juro vai a Europa exigir a Portugal pelo dinheiro que emprestará, e que se sabe à partida que não será nenhuma prenda, e que estratégia negocial poderia seguir o país para obter um resultado menos penalizador.
Mas não. As energias e atenções foram gastas em trocas de acusações, insultos, birras e tretas, com a preciosa ajuda da generalidade da comunicação social, mais interessada nestes epifenómenos, nas partidas e chegadas vazias de conteúdo dos ‘homens do FMI’ ao ministério das finanças e do respectivo pequeno-almoço do que na necessidade de tentar levar o debate para as questões de fundo. Tudo a culminar na apresentação de um surreal programa de governo que pretende ignorar que o verdadeiro programa do próximo governo será o anunciado não por nenhum dos partidos portugueses, mas pelos representantes da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu. A bem da democracia, claro.
Algo que é óbvio e que tanto Sócrates, como Passos Coelho sabem e que o próprio Francisco Louçã não ignora, o que faz com que, conduzido desta forma, o debate político nacional se assemelhe a uma enorme farsa, com uma classe política mais preocupada com os seus interesses de curto prazo do que com um qualquer interesse nacional. Seja lá isso o que for.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
(in)Tolerâncias de ponto
Consta que, além de Pedro Passos Coelho, também a "troika" está indignada (chocada, mesmo) pelo facto de os mandriões dos funcionários públicos portugueses terem direito a meio dia de tolerância de ponto. Só se for por os diligentes e hiperactivos eurocratas (que correspondem a 1/3 da troika, ou até mesmo a 2/3 se estas regras se aplicarem ao BCE) não trabalharem durante três dias inteirinhos (hoje, amanhã e segunda-feira). É que nestas coisas de feriados é preciso sempre encontrar o máximo denominador comum entre as 27 tradições europeias.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Alôôô? Posso elogiar?
Uma senhora telefona para a redação da TSF pouco depois das 21h de segunda-feira. Eis o diálogo:
- Boa noite, olhe, recebi uma mensagem do PSD para me inscrever no Fórum da TSF. Queria me inscrever...
- Bem, enganou-se. As inscrições não são feitas agora. Só amanhã...
- Ah... desculpe. Disseram-me que era às nove. Pensei que fosse da noite.
Nota: o Fórum da TSF, de terça-feira, teve como convidado Pedro Passos Coelho.
- Boa noite, olhe, recebi uma mensagem do PSD para me inscrever no Fórum da TSF. Queria me inscrever...
- Bem, enganou-se. As inscrições não são feitas agora. Só amanhã...
- Ah... desculpe. Disseram-me que era às nove. Pensei que fosse da noite.
Nota: o Fórum da TSF, de terça-feira, teve como convidado Pedro Passos Coelho.
Jornalismo sobre nada
Enquanto os técnicos do FMI, do Banco Central e da Comissão Europeia fazem o seu trabalho de rotina, em reuniões sucessivas para avaliar o estado de Portugal, os jornalistas fazem o outro trabalho que infelizmente se tornou a rotina da comunicação social: plantam-se às portas, com diretos sucessivos para falar de... coisa nenhuma. É extraordinário como reuniões - apenas reuniões - merecem tanta atenção. E os jornalistas relatam os grandes "acontecimentos": saiu o carro do FMI, entrou o carro do FMI, chegou o ministro Teixeira dos Santos, saiu o carro dos técnicos, entrou o dirigente sindical....
Enquanto durar o trabalho dos técnicos das contas, as redações têm muito por onde se entreter: enchem as "notícias" de nadas e os telejornais de coisa nenhuma.
Enquanto durar o trabalho dos técnicos das contas, as redações têm muito por onde se entreter: enchem as "notícias" de nadas e os telejornais de coisa nenhuma.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Caro amigo, a coisa tá preta é aqui
Carta de um alegado artista português, anónimo, que aproveitou um voo da TAP sem avarias para enviar uma carta gravada, escrita depois do Benfica-Porto, a um amigo a viver no Brasil: "Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesse CD. Aqui na terra tão jogando muito futebol. Tem muito fado, muito choro e muito rock'n roll. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Muita mutreta para levar a situação. Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça. É pirueta para ganhar o ganha-pão, que a genta vai ganhando só de birra, só de sarro. E a gente vai fumando que também sem um cigarro, ninguém segura esse rojão. Meu caro amigo, eu quis até telefonar, mas a tarifa não tem graça. Aqui na terra, tão jogando muito futebol, muito fado, muito choro e rock'n roll. Uns dias chove, noutros dias bate o sol. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta". * Este blogue agradece o contributo de Chico Buarque, que ajuda a explicar a situação portuguesa.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Ironias...
Pela primeira vez, o Governo apresenta um PEC, sem "martelar" nos números para dourar a pílula. Pela primeira vez, é realista, evitando anunciar uns "oásis" que se aproximam. É verdadeiro nas previsões e agora arrisca-se a... cair.
O verdadeiro valor das coisas
Há mais dirigentes do topo do PS, secretários de Estado e ministros a participar na campanha interna socialista de José Sócrates, que concorre a secretário-geral, do que participaram na campanha de Manuel Alegre na corrida à Presidência da República.
segunda-feira, 14 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
E tudo volta ao mesmo no reino da Líbia
Depois de uns intensos bombardeamentos, em pouco mais de três dias, Muammar Kadhafi está quase a recuperar, na totalidade, o controlo do território líbio. Em breve, vai acabar a aventura de uns tipos que, convencidos da boleia de umas manifestações, conseguiriam derrubar um ditador com quase 42 anos de experiência activa a mandar a seu bel-prazer. Os ditos rebeldes juntaram umas tropas fandangas e pensaram enfrentar um poderio militar, adquirido anualmente em França, Estados Unidos, Rússia e China. Tramaram-se. A Líbia vai ficar exatamente como estava há três semanas. Os homens que, por essa Europa e América fora, descobriram que Muammar Kadhafi é um ditador violento, assassino, louco e mais uns mimos vão ter de o engolir. E bem podem ter a mesma atitude que tinham há três semanas: bajulá-lo, visitá-lo e estender-lhe a mão (com pragmatismo, como defende Luís Amado, ou sem ele). Afinal, há muitos negócios para fazer e muita arma para vender.
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