sábado, 30 de abril de 2011

Que parte do 'é um bocado tarde para isso' é que não perceberam?

Depois de, à semelhança do PCP, ter recusado reunir com a troika, o Bloco de Esquerda solicitou uma reunião com o governo para expor as suas posições antes de Portugal assumir qualquer compromisso com as instituições internacionais com que está a negociar o pacote de ajustamento que terá que implementar, em troca do financiamento para os próximos anos.

Dias antes o negociador do PSD escreveu ao governo a manifestar a disponibilidade do seu partido para encontrar um entendimento com o executivo nas negociações.

Pouco antes José Sócrates apresentou o programa eleitoral do PS até 2015.

Todos estes actos parecem ignorar o simples facto de as ditas negociações estarem a decorrer há várias semanas, de estarem prestes a ser concluídas e de o anúncio do seu resultado ser esperado o mais tardar até à próxima quarta-feira.

E o que vai ser anunciado não será um conjunto de ideias para reflexão dos partidos portugueses. Mas sim um pacote definitivo com medidas concretas e metas temporais específicas para as alcançar e que, quando vir a luz do dia, já terá o acordo do governo e o apoio do PSD e do CDS. E não um acordo do género, ‘ok, depois logo vemos o que fazemos com isso’, mas um acordo escrito na pedra (com cartas de conforto, declarações unilaterais, sem fotos de grupo ou o que quer que seja) que o próximo governo terá que implementar, seja qual for a sua composição. Pois essa implementação será monitorizada periodicamente e qualquer desvio levará ao fecho imediato da torneira dos milhões da União Europeia e do FMI de que Portugal precisa.

Os traços gerais do que aí vem estão na edição de hoje do Expresso e vão desde a reestruturação da administração pública e a reforma da justiça, a um vasto programa de privatizações, passando pela flexibilização do mercado laboral e mexidas nos impostos. Entre outras coisas. Austeridade e reformas a sério. Em alguns casos será mais do mesmo que sucessivos governos têm vindo a fazer ao longo dos últimos 10 anos, mas com a ênfase no ‘mais’.

E é isto que vai ser anunciado brevemente e que não foi minimamente discutido pelos partidos portugueses nas últimas semanas. Nem isso, nem outras coisas, como por exemplo, que taxa de juro vai a Europa exigir a Portugal pelo dinheiro que emprestará, e que se sabe à partida que não será nenhuma prenda, e que estratégia negocial poderia seguir o país para obter um resultado menos penalizador.

Mas não. As energias e atenções foram gastas em trocas de acusações, insultos, birras e tretas, com a preciosa ajuda da generalidade da comunicação social, mais interessada nestes epifenómenos, nas partidas e chegadas vazias de conteúdo dos ‘homens do FMI’ ao ministério das finanças e do respectivo pequeno-almoço do que na necessidade de tentar levar o debate para as questões de fundo. Tudo a culminar na apresentação de um surreal programa de governo que pretende ignorar que o verdadeiro programa do próximo governo será o anunciado não por nenhum dos partidos portugueses, mas pelos representantes da Comissão Europeia, do FMI e do Banco Central Europeu. A bem da democracia, claro.

Algo que é óbvio e que tanto Sócrates, como Passos Coelho sabem e que o próprio Francisco Louçã não ignora, o que faz com que, conduzido desta forma, o debate político nacional se assemelhe a uma enorme farsa, com uma classe política mais preocupada com os seus interesses de curto prazo do que com um qualquer interesse nacional. Seja lá isso o que for.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

(in)Tolerâncias de ponto

Consta que, além de Pedro Passos Coelho, também a "troika" está indignada (chocada, mesmo) pelo facto de os mandriões dos funcionários públicos portugueses terem direito a meio dia de tolerância de ponto. Só se for por os diligentes e hiperactivos eurocratas (que correspondem a 1/3 da troika, ou até mesmo a 2/3 se estas regras se aplicarem ao BCE) não trabalharem durante três dias inteirinhos (hoje, amanhã e segunda-feira). É que nestas coisas de feriados é preciso sempre encontrar o máximo denominador comum entre as 27 tradições europeias.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Alôôô? Posso elogiar?

Uma senhora telefona para a redação da TSF pouco depois das 21h de segunda-feira. Eis o diálogo:
- Boa noite, olhe, recebi uma mensagem do PSD para me inscrever no Fórum da TSF. Queria me inscrever...
- Bem, enganou-se. As inscrições não são feitas agora. Só amanhã...
- Ah... desculpe. Disseram-me que era às nove. Pensei que fosse da noite.

Nota: o Fórum da TSF, de terça-feira, teve como convidado Pedro Passos Coelho.

Jornalismo sobre nada

Enquanto os técnicos do FMI, do Banco Central e da Comissão Europeia fazem o seu trabalho de rotina, em reuniões sucessivas para avaliar o estado de Portugal, os jornalistas fazem o outro trabalho que infelizmente se tornou a rotina da comunicação social: plantam-se às portas, com diretos sucessivos para falar de... coisa nenhuma. É extraordinário como reuniões - apenas reuniões - merecem tanta atenção. E os jornalistas relatam os grandes "acontecimentos": saiu o carro do FMI, entrou o carro do FMI, chegou o ministro Teixeira dos Santos, saiu o carro dos técnicos, entrou o dirigente sindical....
Enquanto durar o trabalho dos técnicos das contas, as redações têm muito por onde se entreter: enchem as "notícias" de nadas e os telejornais de coisa nenhuma.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caro amigo, a coisa tá preta é aqui

Carta de um alegado artista português, anónimo, que aproveitou um voo da TAP sem avarias para enviar uma carta gravada, escrita depois do Benfica-Porto, a um amigo a viver no Brasil: "Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesse CD. Aqui na terra tão jogando muito futebol. Tem muito fado, muito choro e muito rock'n roll. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Muita mutreta para levar a situação. Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça. É pirueta para ganhar o ganha-pão, que a genta vai ganhando só de birra, só de sarro. E a gente vai fumando que também sem um cigarro, ninguém segura esse rojão. Meu caro amigo, eu quis até telefonar, mas a tarifa não tem graça. Aqui na terra, tão jogando muito futebol, muito fado, muito choro e rock'n roll. Uns dias chove, noutros dias bate o sol. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta". * Este blogue agradece o contributo de Chico Buarque, que ajuda a explicar a situação portuguesa.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ironias...

Pela primeira vez, o Governo apresenta um PEC, sem "martelar" nos números para dourar a pílula. Pela primeira vez, é realista, evitando anunciar uns "oásis" que se aproximam. É verdadeiro nas previsões e agora arrisca-se a... cair.

O verdadeiro valor das coisas

Há mais dirigentes do topo do PS, secretários de Estado e ministros a participar na campanha interna socialista de José Sócrates, que concorre a secretário-geral, do que participaram na campanha de Manuel Alegre na corrida à Presidência da República.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Enquanto são crianças, podem...




domingo, 13 de março de 2011

E tudo volta ao mesmo no reino da Líbia


Depois de uns intensos bombardeamentos, em pouco mais de três dias, Muammar Kadhafi está quase a recuperar, na totalidade, o controlo do território líbio. Em breve, vai acabar a aventura de uns tipos que, convencidos da boleia de umas manifestações, conseguiriam derrubar um ditador com quase 42 anos de experiência activa a mandar a seu bel-prazer. Os ditos rebeldes juntaram umas tropas fandangas e pensaram enfrentar um poderio militar, adquirido anualmente em França, Estados Unidos, Rússia e China. Tramaram-se. A Líbia vai ficar exatamente como estava há três semanas. Os homens que, por essa Europa e América fora, descobriram que Muammar Kadhafi é um ditador violento, assassino, louco e mais uns mimos vão ter de o engolir. E bem podem ter a mesma atitude que tinham há três semanas: bajulá-lo, visitá-lo e estender-lhe a mão (com pragmatismo, como defende Luís Amado, ou sem ele). Afinal, há muitos negócios para fazer e muita arma para vender.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Deve haver uma frota larga de C-130

Ando muito divertido a ler e a ouvir muitos portugueses a desejarem que Angola entre em convulsões sociais idênticas às do Médio Oriente. Além de ser divertido pela absoluta ignorância nas comparações entre países e regiões, há um lado perverso: vivem em Angola (registados) mais de 92 mil portugueses que transferiram, em 2010, para Portugal mais de 132 milhões de euros. Nada mau para um país que, como se sabe, está em crise.
E uma convulsão social pode provocar mais uma ponte aérea para trazer os portugueses todos que por lá fazem pela vida. Não sei se Portugal - e, já agora, a União Europeia - tem assim tantos aviões C-130.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O tribunal da Polónia é que lhe topa os truques

Lesto a detetar "truques" dos políticos em Portugal - daqueles que não apoia, naturalmente - Alexandre Soares Santos, líder do Grupo Jerónimo Martins, é mais lento a falar dos problemas do grupo na Polónia. Os truques foram julgados e detetados pelos tribunais polacos, desde a primeira instância ao Supremo. Há dois anos, o jornal I relatava as decisões do Supremo tribunal numa notícia que aqui se reproduz parte:

Apoiando-se em depoimentos de testemunhas e em relatórios da Inspecção-Geral do Trabalho (IGT), o Tribunal de Primeira Instância confirmou que existiam infracções massivas aos direitos dos trabalhadores, como colaboradores com salário e contrato de part-time que eram obrigados a fazer horário completo. Deu também como provado que raramente eram pagas horas extraordinárias, eram proibidas idas à casa-de-banho nas horas laborais, havia ameaças de despedimento, entre outros exemplos. A IGT polaca confirmou ainda que a Biedronka mantinha o registo de horas de trabalho de forma desonesta e que as regras de higiene e segurança eram recorrentemente infringidas.

Destes truques da Biedronka, pertencente à Jerónimo Martins, é que o empresário Alexandre Soares dos Santos se "esquece". Ou apenas omite quando despeja certezas inabaláveis, como esta:

"Ele [os políticos] é que gostam de truques. O nosso sucesso assenta em trabalho."

Esse trabalho foi bem descrito pela Inspeção-Geral da Polónia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O centro do centro, mas honesto

Como se sabe e se sente, há muito tempo que o MPLA abandonou o "socialismo científico", apregoado durante décadas, para assumir, na prática, uma outra postura ideológica. Só que, na teoria, essa outra postura ainda não constava do programa do partido. Até este fim-de-semana. Dirigentes do MPLA estão reunidos em Luanda para redifinir a sua posição ideológica e, de acordo com os seus principais dirigentes, a linha traçada chama-se "socialismo democrático". E foi esse socialismo que motivou a realização de uma mesa redonda. Na abertura da cimeira coube ao presidente do grupo parlamentar, Virgílio de Fontes Pereira, explicar aos delegados o que é o socialismo democrático abraçado pelo MPLA:

"Um partido do socialismo democrático anda mais para esquerda quando defende mais os princípios da igualdade, da liberdade, da socialização da produção, entre outros. Vai mais para direita quando apregoa uma maior intervenção no mercado”.

Este zigue-zague do MPLA serve de lições a muita gente. Primeiro para aqueles que andam à procura do "Centro" que podem encontrar aqui um modelo; depois para aqueles que se dizem comunistas e vêem no MPLA um partido "camarada" de percurso e aliado de todas as horas; e, por fim, para os partidos de direita que, por esse mundo fora, não se cansam de "piscar os olhos" (de mão estendida ou apenas com cumplicidade ideológica) ao MPLA. O partido no poder em Angola tem assim braços largos e um colo quente.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ataque aos hipócritas

A propósito das loas que se ouve e lê por aí à música dos Deolinda, vale muito - mas mesmo muito - ler o que escreve Rui Pelejão Marques sobre os hipócritas que não têm vergonha de falar da "geração lixada".

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O que seria do Mundo sem esta clarividência?

Luís Amado, ministro dos Negócios Estrangeiros, em declarações a diversos órgãos de comunicação social:
"A situação no Egito ainda é muito complexa"

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quando o povo é empurrado...

O Líder Supremo do Irão, aitollah Ali Kamenei, já festejou a queda de Hosni Mubarak, considerando que foi uma "vitória do povo egípcio". As garras, há muito, que estavam afiadas. Agora, já as mostram. Daqui a nada, têm-nas no poder.

Facada no Durão

Miguel Relvas, secretário-geral do PSD, disse hoje numa entrevista à SIC-Notícias que "todos os primeiros-ministros, eleitos depois de 1995, falharam" justificando a análise com o facto de ter havido "aumento de impostos, aumento do défice e aumento do desemprego"., em cada um desses governos.
Depois de 1995, foram eleitos António Guterres, DURÃO BARROSO e José Sócrates. Pelo meio, houve outro primeiro-ministro, mas não eleito: Pedro Santana Lopes.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Quem desassossega, amigo é

Agora que aumenta o 'suspense' no Egito, sobre o futuro do país e sobre o destino de Hosni Mubarak, é altamente recomendável que se leia este Prémio Pulitzer, de Lawrence Wright. Fica-se a perceber, antes de mais, as origens da Al-Qaeda e do radicalismo islâmico: escolas, faculdades e mesquitas no... Egito. E fica-se a perceber que aquelas manifestações não são, de todo, espontâneas. Desconfio que a comunidade internacional (essa vasta agência de interesses vários) vai ter muitas saudades do ditador Mubarak, caso ele caia.

As motivações para uma liderança

Conversa ouvida entre dois responsáveis do PS sobre o que se poderá no próximo congresso socialista:
- Achas que o Carrilho se candidata?
- Só se houvesse uma alteração estatutária em que o secretário-geral passasse a ganhar 10 mil euros por mês, mais cartão de crédito 'gold' e carro preto.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Crónica de duas estranhas demissões

A agência Lusa anuncia que Paulo Machado, diretor-geral da Administração Interna, Paulo Machado, e o diretor da Administração Eleitoral, Jorge Miguéis, tinham pedido a demissão.
De imediato, a TSF fala com Jorge Miguéis que nega, rematando que essa hipótese "não fazia sentido nenhum" e que aguardava pela conclusão do inquérito.
Minutos depois desta conversa, a assessoria do Ministério da Administração Interna fazia chegar um comunicado às redações dando conta que o "director-geral da Administração Interna, Professor Paulo Machado, e o director da Administração Eleitoral, Dr. Jorge Miguéis, apresentaram o pedido de demissão na sequência dos factos ocorridos no acto eleitoral de 23 de Janeiro de 2011".
Ou seja, Jorge Miguéis tinha pedido a demissão, mas não sabia.
Ou então, foi nomeado voluntário para sair e a comunicação social soube primeiro.
Ou isto tudo não faz sentido nenhum.

Nota: Apesar deste Governo ter assinado o Acordo Ortográfico, os assessores do mesmo Governo continuam sem saber o que isso significa.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Madeira não esquece o "senhor Silva"

Se fosse pela Madeira, Cavaco Silva não conseguiria ser reeleito à primeira volta. E José Manuel Coelho fica em segundo lugar.